Você está aqui Mundo Asia  

Aperto de mãos abre cúpula histórica entre as duas Coreias

Sexta, 27 Abril 2018  vanda de carvalho

Até 2017, ele era considerado uma ameaça global. Aos 34 anos, Kim Jong-un se destacava pelo comportamento agressivo: foram ao menos dez lançamentos de mísseis e um teste nuclear, o sexto e mais potente já feito pela Coreia do Norte, no ano passado. A postura intimidadora, porém, mudou nos últimos meses, o que se reflecte no processo, iniciado em Janeiro, de aproximação das duas Coreias, e de acenos da Coreia do Norte aos EUA. O principal resultado da mudança de tom, até agora, pôde ser visto na manhã desta sexta-feira, na primeira cúpula entre os actuais líderes coreanos, em cuja abertura Kim prometeu “uma nova era de paz”.

Ao cruzar a linha de demarcação na vila de Panmunjom, na Zona Desmilitarizada que divide os dois países, Kim se tornou o primeiro líder norte-coreano a entrar no Sul desde a Guerra da Coreia (1950-1953). Conhecido por ordenar crimes bárbaros e violações de direitos humanos, ele adoptou um tom conciliatório com o Sul no discurso de Ano Novo e, dias depois, anunciou a retomada do diálogo com o vizinho. Ao assinar o livro de hóspedes na Casa da Paz, no lado sul-coreano, o ditador escreveu que “uma nova História começa agora”.

“ As expectativas são altas e aprendemos uma lição de outros tempos, e mesmo se tivermos bons acordos, mas implementações não ocorrerem, as pessoas ficarão decepcionadas”- disse Kim na abertura do encontro com o presidente sul-coreano, Moon Jae-in.” Espero escrever um novo capítulo entre nós. Acredito que podemos fazer um novo começo, e é com este compromisso que venho a este encontro”.

A decisão de Kim de iniciar o processo de reaproximação veio após Moon sugerir o adiamento dos exercícios militares anuais com os EUA na Península Coreana para depois da Olimpíada de Inverno de PyeongChang, em fevereiro. A partir daí, a reaproximação com o vizinho do Sul se aprofundou, levando Kim a prometer abrir mão de seu arsenal nuclear caso obtenha garantias de segurança. Nesse curto período, pelo menos aos olhos do presidente americano, Donald Trump, Kim passou de “homenzinho do foguete” a um líder “muito honrável”. Nesta quinta-feira, quando o ditador partiu para a cúpula, a agência de notícias norte-coreana, KCNA, disse que ele discutirá “de coração aberto” com Moon “todas as questões envolvidas na melhora das relações intercoreanas e para alcançar paz, prosperidade e reunificação da Península Coreana”.

Para mostrar um lado mais brando, Kim também recorreu a duas mulheres em sua estratégia: sua irmã, Kim Yo-jong, e sua mulher, Ri Sol-ju. A primeira-dama, que recebeu tal título apenas este mês, passou a acompanhá-lo nos eventos públicos, incluindo a viagem à China. Já Yo-jong foi fundamental na visita ao Sul na Olimpíada de Inverno. Ambas estavam com Kim na cúpula.

A comitiva de Kim contou também com Kim Yong-chol, chefe da Inteligência militar, e o chanceler Ri Yong-ho. Já pelo lado sul-coreano, Moon terá a seu lado Suh Hoon, chefe do serviço de Inteligência, e Chung Eui-yong, conselheiro de Segurança Nacional.