Papa propõe Igreja aberta, ao serviço da «humanidade ferida», evocando vítimas da guerra e da exploração

Papa propõe Igreja aberta, ao serviço da «humanidade ferida», evocando vítimas da guerra e da exploração

O Papa defendeu este Domingo, no Vaticano, que o processo sinodal em curso deve construir uma Igreja aberta, ao serviço da “humanidade ferida”, sem “controlar” Deus com esquemas e estratégias de pequenos grupos.

“Esta é a Igreja que somos chamados a sonhar: uma Igreja serva de todos, serva dos últimos. Uma Igreja que acolhe, serve, ama, sem nunca exigir antes um atestado de boa conduta, as acolhe, serve, ama, perdoa”, disse, na homilia da Missa conclusiva da primeira sessão da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos.

Perante milhares de pessoas reunidas na Basílica de São Pedro, Francisco assumiu o desejo de ver crescer uma “Igreja adoradora e Igreja do serviço, que lava os pés à humanidade ferida, acompanha o caminho dos frágeis, dos débeis e dos descartados, sai com ternura ao encontro dos mais pobres”.

A intervenção apontou ainda, como prioridades, a atenção aos “estrangeiros de todo o tempo e lugar, a todos aqueles que são oprimidos e explorados”.

“Irmãos e irmãs, penso naqueles que são vítimas das atrocidades da guerra; nas tribulações dos migrantes, no sofrimento escondido de quem se encontra sozinho e em condições de pobreza; em quem é esmagado pelos fardos da vida; em quem já não tem lágrimas, em quem não tem voz”, acrescentou.

O Papa mostrou-se particularmente crítico do “grave pecado” da exploração de seres humanos, que “corrói a fraternidade e destrói a sociedade”.

“Não existe uma experiência religiosa autêntica que seja surda ao grito do mundo. Uma verdadeira experiência religiosa. Não há amor a Deus sem envolvimento no cuidado do próximo, caso contrário corre-se o risco do farisaísmo”, sustentou.

Os trabalhos da primeira desta assembleia, com o tema ‘Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação, missão’, iniciados a 4 de Outubro, encerraram-se este sábado com a aprovação do documento de síntese; Francisco decidiu que a mesma terá uma segunda etapa, em 2024.

A homilia desta manhã assinalou que, mais do que “muitas e belas ideias para reformar a Igreja”, a transformação mais importante para a Igreja passa sempre por “adorar a Deus e amar os irmãos com o seu amor”.

Trata-se dum risco que podemos sempre correr: pensar em controlar Deus, encerrar o seu amor nos nossos esquemas, quando, pelo contrário, o seu agir é sempre imprevisível e por isso suscita espanto e exige adoração”.

A homilia apresentou a adoração a Deus como antídoto contra a “idolatria”, alertando para os perigos da “vanglória pessoal, a ânsia do sucesso, a auto afirmação a todo o custo, a ganância do dinheiro, o encanto do carreirismo”.

“Prezados cardeais, bispos e sacerdotes, religiosas e religiosos, irmãs e irmãos, ao concluirmos esta parte do caminho que percorremos, é importante fixar o princípio e fundamento, do qual uma e outra vez tudo começa: amar a Deus com toda a vida e amar o próximo como a si mesmo”, apelou o Papa.

Francisco convidou a deixar de lado quaisquer “estratégias, cálculos humanos, modas do mundo”, sugerindo dois “movimentos do coração”, descritos nos verbos “adorar e servir”.

“Que a Igreja seja adoradora! Adore-se o Senhor em cada diocese, em cada paróquia, em cada comunidade”, apelou.

A assembleia sinodal, presidida pelo Papa, tem 365 participantes, entre eles 54 mulheres, a quem se somam, sem direito a voto, 12 representantes de outras Igrejas e comunidades cristãs (delegados fraternos), oito convidados especiais e colaboradores da Secretaria-Geral do Sínodo.

A Conferência Episcopal Portuguesa está representada pelo seu presidente e vice-presidente, respectivamente D. José Ornelas e D. Virgílio Antunes.

“Hoje não vemos o fruto completo deste processo, mas podemos com clarividência olhar o horizonte que se abre diante de nós: o Senhor guiar-nos-á e ajudar-nos-á a ser Igreja mais sinodal e missionária, que adora a Deus e serve as mulheres e os homens do nosso tempo, saindo para levar a todos a alegria consoladora do Evangelho”, concluiu o Papa.

OC